quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

A Saga do Queijo - Da Canastra, Claro

Duvidaram que eu ia trazer um queijo da Canastra em dois dias. Trouxe 3, mas só chegô 2.


I

- Mineirin, quans que é pra tirá retrato cos boi?
- Cê bôb, Sô! O preço tabelado é 10 real, mas se ocê me der uma carona nessa bóbrona suas, pra módi conozá as sola da butina, o retrato fica é pela amizade!
- Pó pitá a guimba e amuntá. Firma o gorpe e vão fazê rastro que o trem partiu!

O Canastra boa...



II

- Queijo na Canastra tem em tudo quanto é canto. Mas premiado, só no meu boteco.
- Tem fresco, mas num é afetado, meia cura e curado. Vai querer qual, gente boa?


segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Se fo í ni Minas, cuida!

Os trem mais esquisito acontece naquelas parage.


1. Causo Verídico

Enquanto isso, em um cruzamento entre nada e lugar algum:
- Dona Cândida? A Sra. se lembra de mim?
- Não.
- Há 6 anos a Sra. me salvou. Passei por aqui em uma bicicleta dupla e a Sra. me deu uma marmita com carne de porco, arroz, feijão e um guisado de abóbora. Escrevi esse livro, e vim lhe trazer de presente.
- Eu tô no livro? Ah, meu Deus! Nesse caso, vão passá pra dentro, uai! 
- Obrigado! Nós estamos indo pro Rio de Janeiro, travêz, aqui pelo Sertão.
- Mai agora ocês tá de moto. Capaz que miorô de vida, Sô!



2. Causo verídico e acontecido

Primeira etapa cumprida, e comprida! Foram 837km em 14h de função. Descontando 2h para comer um delicioso peixe na brasa, em Pirapora.

O parceiro já gastou a metade do 13* salário / 2015 "diquirindo pópriedades barranquisticas". Como não trouxe talão de cheques, a cada aquisição deixa uma peça made in Germany como sinal e traz um pouco de terra como garantia de compra. Minino investidôzin que só, Sô!

- Ô Sô Frávio! Só pensano no patrimônio seus. Tem dó! Pára de comprá terreno, uai!
- Réidumá, agora ocê pode parar de filmar, fotografar e rir, e tirar essa moto de cima da minha perna, por favor? Obrigado.




3. Causo verídico, acontecido, inda por cima baseado ni fatos reais

Dia de descanso!
- Parceiro, vamos fazer o quê hoje?  
- Dar uma corridinha leve, pra módi ocê conhecê a Serra do Cipó!

02 horas depois, a soltadinha teve:
I) corrida que só sobe na trilha dos escravos;
II) boulder no Grupo 3;
III) espeleologia;
IV) contemplação; 
V) 14km de trilhas duras; e

V) disputa na chegada (sem foto, mas eu ganhei; é óbvio!).




4. Causo verídico, acontecido, baseado ni fatos reais e eu vi

O diaxo da gasolina acabou faltavam 17km para o posto. Tomba a moto, chacoalha o trem, aproveite a banguela e chora nas rampas. Faltando 2km, pára de vez a bitelona. Despachei a Ótoridade pra caçar um trem de hidratar a bóbrona, e empurrei 1,8km. 

Se encontrasse o capeta ia abraçar o cão pra ver se refrigerava o couro por baixo da fantasia de rally. Quando Sô Frávio voltou com a gasolina, a moto não pegava e acabou a bateria. Tornei despachá o omi! Então um mineirinho, do nada, apareceu na beira da estrada:

- Se o pobrema seus é gasolina, lascô. Mai se bateria, pó gradecê que o cabo já chegô.

- Ê trem bão. Back ni business travêz, uai!



5. Causo verídico, acontecido, baseado ni fatos reais, eu vi e tem tistimunha

Seu Zico, 84 ano, corpinho de 62. 
- Vi dizê que ocê é terrô das muié aqui na Capela do Saco. Qual o segredo do sucesso seus, uai?
- Fora a formosura? Perfume de Rainha de Pomba Gira, uai! Tem 24 ano que a finada foi. E já interei 27 formosura que não resistiu neu.
- Cê besta! Quero um litro desse trem.
- Ocê é doido. É tipo amostra grátis, . Passa é uma gotinha, e num toma banho!
- Mai eu quero, sô!
- Num fabrica mais!
- Então me vende um cadin do seu!
- De jeito manêra! só tenho 100 litro!

Enquanto isso, uma voz feminina grita:
- Seu Zico, me vende um kilo de fubá?
- Aí. Falei procê sô! Vô interá 28 é agurinha mêsm!


Uaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaá!



6. Causo verídico, acontecido, baseado ni fatos reais, eu vi, tem tistimunha e é mió ocê crê neu

Perdidos na mata, procurando os marcos da estrada real, encontramos duas crianças com lençóis, escondendo da cabeça aos pés, na posição Cristo Redentor:

- Ô estáuta, Méqui chega no SantanTonhodosLeite?
- Conhece o Tião, meu padrinho?
- Não.
- Intão. Ocê segue até a casa dele e vira à esquerda. Facin!
- E ocês tá brincandiquê?
- Dexdisêburro! Num tá vendo que é de ominvizívi?
- e Méqui ocê chama?
- Jaozin.
- Então ocê deve sê o Jaozin das piada?
- &%ˆ$#*(@#@&, sô!
- Ah! Gordin boca suja!
Vaza, sô! Xá nói brincá em paz!

Tão tá! Andei 500m e parei pra esperar a barriga pará as cãibras!

Ê Minas Gerais!

domingo, 8 de novembro de 2015

Brasília - Paraty, travêz.


A primeira vez foi de bicicleta. Saí pedalando de casa em Brasília, em uma bicicleta tandem (dupla), com um desconhecido, bruto e cego, desde então meu novo irmão, Adauto Belli. Ele, que deveria me trazer lucidez e juízo, me ensinou que há muito mais em enxergar sem ver, que ensinar a partir da perspectiva única do olhos. E me ensinou o que é coragem: por 1.700km ficou na minha garupa, sem ver as valas, os mata-burros e abismos que cruzamos. E eu, nos 300m que andei com ele pilotando, não tive coragem de fechar os olhos. O verbo confiar ganhou nova perspectiva em minha vida.

Com um mapa na cabeça, deixamos o Planalto Central emendando estradas de terra até Diamantina, onde começamos o Caminho Velho da Estrada Real, até Paraty, no Rio de Janeiro. Coragem, disposição e bom humor. E Minas Gerais. Que por si já é razão suficiente. As montanhas, a história, o povo, a hospitalidade, os causos, e o diaxo da costelinha de porco. Oh, Minas Gerais!


Quando o amigo Flávio Milhomem veio sondar sobre o caminho que fizemos, dizendo que estava pensando na possibilidade de fazer o mesmo, de moto on-off road de grande cilindrada, não tive dúvidas.

  • Precisa de guia? Não dou trabalho, pago minhas despesas e pronto. Vóis mecê pagano um queijo no Serro, uma Pincomel no Cipó e uma Costelinha com Ora-pro-Nóbis em Ouro Preto, considero remunerado.

Deixamos a Capital para 9 dias de cascalho, areião, costela (de vaca), pedras, montanhas, poeira, lama, chuva, várias desgarradas rumo ao desconhecido, Mata-nóis (mata-burro longitudinal com vala central), solidão dentro do capacete, calor insuportável, frio de bater o queixo, e inevitáveis e incontroláveis sorrisos no final de cada dia, às vezes à volta de um fogão de lenha tomando uma dose de cachaça direto do tonel, claro, com um queijin, noutras provando a mineiríssima e extraordinária Backer, com a tradicional cozinha Mineira. Ah! E um dia para voltarmos, extasiados, para o cerrado.


A desculpa perfeita. Durante a viagem de bicicleta com o Adauto, conhecemos pessoas incríveis, que abriram a porta de casas humildes, e colocaram na mesa toda a comida disponível, em troca de sorrisos, piadas, e explicações da nossa saga, às vezes querendo dar uma volta na Indiona (nome da nossa bicicleta tandem), mas mineirin encabroado, preferindo comer um queijo a subir num trem doido daqueles.

Acabei escrevendo um livro (Brasília - Paraty, Somando Pernas para Dividir Impressões, Ed. Thesaurus 2009) para registrar alguns sufocos, um desafio de gente grande e tantos causos pitorescos. Coloquei 06 exemplares no alforje, e já sabia exatamente quem procurar, como a Dona Cândida.


Viajar de moto é ver o mundo sob outra ótica. Expandir os horizontes. Sem a proteção do carro, ou o perrengue da bicicleta. A parada é onde você quiser, se quiser. De Big Trail, tanto faz onde. Quanto pior a estrada, melhor a empreitada. 

Até participar do BMW GS Trophy South America, um rally exclusivamente disputado por motos de grande cilindrada, achava que essas motos eram puro estilo, um apelo válido somente para viagens longas por caminhos tranquilos. Depois da experiência, descobri que você faz o seu caminho. Suspensões confiáveis, motor de sobra.  




Como dizem os mineirinhos, “Tá bão causo que tá ruim, mió seria se pió fosse”! Voando por cima de lombadas e mata-burros, atravessando grotas, saltando pedras, fazendo curvas de lado e atropelando buracos e costelas de vaca. Unstoppable, como diriam os alemães, ou simplesmente: 

- Nú! Trem Bão, como diriam em Minas! 



O Parceiro Milhomen pilotou uma BMW GS 800F, e eu uma KTM 990 Adventure. Diria que a alemã é a moto definitiva. Confiável, ágil, motor redondo, ciclística perfeita, baixo consumo e boa autonomia. Contra pesam apenas uma certa fragilidade nos aros e na suspensão. Já para quem gosta de sustos, de montar em “boi bravo”, tem disposição de fazer muita força e quer fazer estripulia, pó garrá no chifre da austríaca!




quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Pai de Aluguel - Audax 200km

Publicado na Revista Evoke


- Capitão, preciso contratar um Pai de Aluguel.
- Como assim?
- Pepeu quer fazer o Audax 200km, semana que vem.
- Uai, e você?
- Capitão! Não é má vontade. Queria demais. É que nem na roda dele eu consigo andar mais.
- Nesse caso, aceito a empreitada.

Ele, o Pepeu, tentou ser simpático. Me ligou para tentar marcar ao menos um treino juntos. Ligou para pedir dicas de alimentação. Dicas de pedal. 

- Pepeu, estou ocupado, já te ligo. 

Nunca retornei. E me arrependi quando, na véspera do AUDAX 200km, às 23h45, ele chegou para dormir na minha casa, já que teríamos que acordar às 4 da madrugada.

- Quanto você pesa, moleque?
- 40kg, tio.
- Primeiro, esquece o “Tio”. Segundo, isso é peso de gente? Quer dizer, dá pra respirar e pensar, ao mesmo tempo? E quanto você mede?
- 1,65, tio, quer dizer, Weimar.
- 1,32? Com esse chassis de grilo depois da redução de abdomen e essas pernas de borboleta marombeira, você acha mesmo que dá pra pedalar 200km?
- Não sei...

O dia será longo, pensei.

Chegamos atrasados na largada. Meia hora para ser preciso. Orientados pelo organizador do Audax 200km, não fizemos a primeira alça de 17km no Lago Norte - deixamos para o final, seguimos para o pelotão, por questões de segurança.

Com 3 min de pelotão:

- Tudo bem contigo, rapá? Vamos nessa?
- Acelera!

Atacamos.

- Moleque, algumas poucas pessoas me chamam de Sem Noção. Então é o seguinte: Vamos no seu ritmo. Se eu forçar, me avise. Você tem que ficar um pouco acima da zona de conforto. Se passar, me grite.
- Pode diminuir, só um pouquinho, então?

Falou já chegando no Colorado, no final da subida. Seguimos rumo à Torre Digital, com Brasília ainda iluminada, no breu, à direita. À esquerda, o sol teimando em nascer, novamente. Ali, naquela crista de visão privilegiada, é que me dei conta do que estávamos fazendo. Pedalar 200km aos 14 anos de idade é um grande feito. Mas sob minha responsabilidade? Vou caprichar.

- Fica na roda, doido. Vamos voar. 

Quase não segurei as lágrimas de emoção. Ele não vai esquecer tão cedo esse dia, se depender de mim. DF001, Itapoã, Paranoá, Barragem, Ermida, Lago Sul, Gama. E ele feito carrapato, na roda. Na dignidade. Sofrendo calado. Projeto de ogro. A certa hora, no plano, olhei para o Garmin: 42km/h!

- Tudo certo aí, Pepeu?
- Pode diminuir, só um pouquinho?

Baixei para 39km/h. Se diminuir muito, acomoda. Deixa ele sofrer. É assim que se aprende.

Confesso. Judiei. Amassei, esfolei, ataquei. E ele na roda. Lembrei do coração de mãe, da bondade eterna com a cria. Quase pude ver Sra. Mãe do Pepeu, olhos mareados, no soluço que antecede o pranto convulsivo:

- Wei, o que você está fazendo com o meu bebê?

E não aguentei o apelo da matrona, na esfera mental. Acelerei. 

- Toma moleque. Devia estar inscrito no curso avançado de Code Full para GTA. Ou na turma básica de plié avançado de Ballet pós-moderno. Preferiu pedalar? Então segura mais uma. Toma. E toma novamente. Mais uma, só pra não perder o costume.

Na segunda vez que subimos a Barragem do Paranoá em direção à Ermida, com 168km percorridos, ele balançou:

- Weimar, acho que preciso alongar. Estou começando a ter cãibras nos dedos dos pés.

De olho na caramanhola dele, cheia de Gatorade, disse bem sério:

- Moleque! Cãimbra no dedo do pé é bom sinal, sempre tenho e nunca acontece nada. Agora, nós precisamos achar algum líquido vermelho para você beber, urgente.
- Eu tenho aqui!
- Então beba tudo, agora.

Ou fiz a maior descoberta do Planeta Terra, ou descobri uma forma de fazê-lo acreditar. Eu já estava com os piores prognósticos para o final do nosso pedal, quando acessamos a L2 Norte. Quando meu parceiro renasceu das cinzas.

Lembrava os rituais de passagem das tribos peruanas. Solta o menino no meio do mato, sem nada. Se voltar, volta homem. Ali, andando novamente a 40km/h, não era mais o Pepeu, filho do meu amigo / irmão de uma vida inteira. Não era mais o moleque de 14 anos, criança, ainda. Quem estava na minha roda, ainda na dignidade que o só o sofrer calado proporciona a um homem era o meu novo parceiro, brother, o Pedrão.

Subi o lago norte no sprint, ele na roda, em pé, assim como eu. No quilômetro 186 a chuva caiu forte, para lavar a alma e abençoar as pernas. Voamos juntos, peito inchado que não cabia tanto orgulho.

Terminamos os 200km com 7h20 de roda girando, e paradas para 02 pneus furados e um açaí levantador de espírito. Dia bom. Inesquecível. Bem-vindo ao time Ogro, Pedrão. 

E enquanto você acaba de ler esse texto, o Pedrão voa da Espanha para Brasília. Aos 14 anos, depois de pedalar 200km comigo, levou o pai ali, para fazer o Caminho de Santiago de Compostela. 

- Vá, Pedrão. Vá conquistar seus sonhos.



A resposta

Coronel Pettengill, 

Ontem você fez de tudo para me incentivar e manter meu psicológico alto durante a toda a prova. Confesso que na estrada do Lago Norte, quando nós paramos para tomar aquele açaí, para levantar o defunto (eu), estava receoso de perguntar quantos quilômetros faltavam. Não perguntei, mas achava que naquela altura do jogo já estávamos mais ou menos aos 180 km quase chegando, foi quando nos sentamos e você mandou:

- Já rodamos 140 km!

Aquilo me levou pro chão, estava moído. Logo depois seguimos pelo lago norte (ML) para entrar no Lago Sul. Naquela parte eu cogitei de desistir, mas vc estava me incentivando, gritando e dando esperança para mim. 

Ao chegar ali na subida da Barragem meus dedos estavam me matando. Vc me chamou de mulherzinha e me mandou beber todo "líquido vermelho" miraculoso da minha garrafa. Foi engraçado! Você falou:

- Cadê o homem que estava aqui comigo, 50km atrás?

Eu estava quebrado, mas colei na sua roda e concentrei, rezando pra aguentar até a chegada.

Wei, ontem foi um dia inesquecível. Por várias vezes eu achei que não ia dar conta!

Não tenho nem palavras para dizer como foi divertido, legal, cansativo, estranho e recompensador completar esse desafio.

Coronel, você além de exemplo de atleta, pai de aluguel, inspirador de muitas pessoas e muitas outras coisas, eu sou se fã!


Comecei a ler um livro chamado Brasilia - Paraty e já to cheio de ideias. Enquanto isso, Audax 300km topa?

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Petralhas



Tenho percorrido o mundo de bicicleta, fora do contexto turístico. Conhecendo povoados incrustados entre o Pacífico e as montanhas nevadas, com florestas cheias de urso no Canadá, ou vinícolas em vales férteis da África. Não importa onde. Mas sabem o que eles têm em comum, ao contrário do Brasil? 

Antes das pessoas, existe um país. E depois do país, existe um “cuidar do próximo”. Não é “respeitar a lei”, mas respeitar as pessoas como gostaria de ser respeitado. E assim se perpetua uma verdadeira corrente do bem. Então as coisas andam, existem projetos de futuro coletivo para o qual todos trabalham - independente dos problemas. Fatores de união social. Diferente da “Lei do Próprio Umbigo”, em vigor no Brasil.

Nós não temos um projeto de Nação. Não temos um objetivo coletivo, muito menos um plano de ação. Não temos sequer líderes capazes de nos unir em busca de um sonho de país. Não sabemos onde queremos chegar, tampouco como ir. "Nossos heróis morreram de overdose” faz sentido em si. 

Desconstruímos a verdade para idolatrar Lampião, D. Pedro, Princesa Isabel e, claro, Capitão Nascimento, entre tantos outros. Um dos únicos líderes que nos uniu e deu sentido ao Brasil, recentemente, foi JK, com o insano plano de industrialização do Brasil e construção de Brasília. Quebrou o País, mas isso ninguém fala. 

Já disseram que a democracia é o pior regime político do mundo, à exceção de todos os outros. Mas é o que temos para hoje. E nós, brasileiros, que sonhamos, que realizamos, que arregaçamos as mangas para cumprir a lei, pagar impostos absurdos, e criar nossos filhos, precisamos resgatar a essência da palavra democracia, e deixar claro que concedemos o poder para que seja exercido em prol da Nação, não do enriquecimento desse ou daquele espertinho.

Chega de tapar o sol com peneira. O jeitinho brasileiro mais uma vez foi usado como esperteza, para transformar o país em massa de manobra. Ninguém tem carta branca para pilhar. Independente desse ou daquele partido.

Se a palavra que vai nos unir enquanto Nação é impeachment ou “ladrão”, pouco importa. Mas depois do Mensalão, depois de Lava-Jato, vamos esperar o quê? Manipularem a história para ouvir novamente “Eu não sabia”? 

Você entregaria a chave do seu cofre a um ladrão, acreditando que ele não roubaria, novamente? Ora, faça-me o favor! Já estamos no fundo do poço. 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Expedição Estrada Real MegaBlasterPlusBãoTamén 2015



Há exatos 06 anos nos reunimos na Catedral de Brasília, nesta época, para uma despedida emocionante. Começava ali a jornada Brasília - Paraty, de bicicleta tandem, com o amigo Adauto Belli.

A aventura virou livro (Brasília - Paraty, Somando Pernas para Dividir Impressões - Editora Thesaurus), e despertou a vontade de compartilhar a saga com algumas pessoas muito especiais, que nos ajudaram durante o percurso. Às vezes com uma Coca-cola gelada, ou emprestando a varanda para dormirmos. Noutras, lavando a roupa do Adauto, “aquele preguiçoso ali que ensaboou o uniforme, mas não viu que ainda tava sujo”…


Na próxima sexta-feira (23) partimos eu e o amigo Flávio Milhomem para outra grande aventura. Diferente, motorizada, mas igualmente desafiadora. Sairemos de Brasília em direção à Unaí, e de lá por estradas de terra até Diamantina, no primeiro dia (800km).

Então, o Caminho do Diamante. Mas como o novo parceiro é triatleta, vamos parar em São Gonçalo do Rio de Pedras para uma corridinha básica de 15km pela Cidade de Pedra e o Rio Subterrâneo, e outra no final do dia na Cachoeira do Tabuleiro (273m de altura), dormindo na Serra do Cipó.


No terceiro dia, depois de uma corridinha até o Grupo III, tradicional point de escalada esportiva do Brasil, voltamos para o Caminho do Diamante até o Caraça, onde pretendemos dormir no Convento dos padres que alimentam os lobos, na mão. Quem sabe uma escaladinha no Pico do Ificcionado, ou do Carapuça, aproveitando o maior serpentário do Brasil - de olhos bem abertos!

De lá pra frente, só me interessam uma Costelinha de Porco com ora-pro-nóbis em Ouro Preto e um rocambole de doce de leite de um lado e cocada do outro, em Lagoa Dourada. Ah! Claro. Tentar achar o mineirinho que queria R$ 50 num queijo (há 6 anos), e levar um livro autografado para o Du, em Caxambú, que desmontou uma bike para nos dar a pastilha de freio que já não tínhamos mais. E tomar um banho de mar, em Paraty, que eu e o Adauto esquecemos naquela vez!

Se tudo der certo, e no prazo bão, alérgico a asfalto, subimos Pedrinhas para Campos do Jordão, descemos a Luminosa e faremos o Caminho da Fé de traiz pra frente, memo!  Até engatar em Delfinópolis, um atái pela Serra da Canastra, proveitá comê um queijin da Serra, e vortá pra casa, antes que alguém dê falta.

Tirin de frobé, descê num pé e garrá de vorta, noutro. Vão vê se dá!

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Brasil Ride 2014

7 Insanas
Estágio 4
Mucugê - BA
Brazil

Publicado na Revista Evoke - Dez 2014 
Fotos: Sportgraf / Text: Weimar Pettengill

Tudo começou em 2010. Caí de pára-quedas em um verdadeiro campo de batalhas. Há muito tempo os esportes de endurance vêm mexendo com minha imaginação, e com boa parte das pessoas que descobrem, aos poucos, a fantástica máquina que é o corpo humano.

Tentei as ultramaratonas à pé, corri 04, sendo uma delas de 120km. Bom, mas machuca muito. Tentei as corridas de aventura, as provas de multisport, escalada em alta montanha, mas pedalar 600 km de moutain bike em uma semana sempre esteve um passo além. Longe da minha realidade.

Já tinha ouvido falar da mãe das Stage Races, La Ruta De Los Conquistadores - na Costa Rica. E do Cape Epic na África do Sul. E do TransAlp, na Europa. Mas nunca me aproximei. Nunca me deixei seduzir.

Experimentando as trilhas Sul Africanas no Cape Epic 2014

Até que me vi, completamente perdido, na bucólica Mucugê - BA. Como um cachorro que cai do caminhão de mudança, ainda me lembro da sensação. Aos pés de uma bela montanha, vizinho de um cemitério em estilo bizantino em plena Chapada Diamantina, boquiaberto, entre as tendas do acampamento base. Cheguei onde sempre quis estar, foi a conclusão óbvia.

Campo Base em Mucugê, Chapada Diamantina

Mais de 20 países representados. Atletas da corrida de aventura, do triatlo, do mountain bike. E dezenas de desavisados, como eu.

Cinco anos se passaram. E o encontro daquele dia permanece vívido. Estive em todas as edições da Ultramaratona de Mountain Bike mais difícil do planeta. E garanto: não há nada melhor acontecendo no universo das duas rodas que reúna atletas profissionais e amadores no mesmo grid de largada. Objetivos e estratégias completamente diferentes, venerando um objeto único, realizador de sonhos: a bicicleta.



Ouvi de atletas do set mundial, como Christoph Sauser (Suíça) e Rebecca Rush (EUA), e testemunhei eu mesmo em provas internacionais: não há competição mais dura que o Brasil Ride. Na África, por exemplo, o principal evento mundial, com 200km a mais e 1 dia extra, não sofremos tanto. Talvez em razão do clima que oscila absurdamente várias vezes por dia. E certamente em razão das trilhas, feitas para bicicletas, com toda intervenção humana possível e imaginável. Parece fluir com mais naturalidade lá no continente africano.

Enquanto isso, transitando entre os campos de altitude e rock gardens do alto da Chapada e a caatinga em sua essência, no entorno das serras, aproveitando caminhos naturais e trilhas centenárias da época da mineração de diamantes do Brasil Colônia, o Brasil Ride nos leva a explorar cenários de contrastes.



Hora nas gerais, com falso-plano e retas intermináveis de areião, noutras em trilhas cinematográficas. Algumas vezes atravessando rios, e inegáveis banhos de cachoeira no meio da prova. Às vezes na garoa fina da madrugada, sob neblina intensa, noutras cercados de espinhos e ossadas de animais, castigados à morte pela dureza da vida no Sertão. E por falar em dureza, horas a fio pedalando sob o sol escaldante, que em 2014 alcançou impensáveis 56℃. Quando bate um vento, queima o rosto, como se estivesse abrindo um forno poderoso.

Casas abandonadas em meio à Caatinga: novo cenário, pós bolsas sociais

Mas em que pese a dificuldade da vida do sertanejo, nas casas de adobe em meio às plantações de palma - por vezes a única fonte de alimento disponível para o gado e para seus proprietários - sempre encontramos sorrisos. Homens, mulheres e crianças que param a vida para ver a banda passar, ou o bonde, ou o pelotão, se preferir. Não raro, uma dupla solitária de atletas passa, em silêncio, cabeças pendendo para o lado, reunindo as últimas energias. É naquele grito encorajador que se descobre forças desconhecidas para seguir adiante.

- Vá com Deus! - Grita o sertanejo, de quem tudo tiram, exceto a fé.

E nessa torre de babel, de ciclistas e suas intrépidas máquinas de fazer força, a estatística me salta aos olhos. Cerca de 500 atletas largaram, dentre tantos países, entre brasileiros do Oiapoque ao Chuí. E uma cidade aponta única no cenário do Brasil Ride. Havia 168 troféus disponíveis, premiação somente até o terceiro colocado de cada categoria, em cada etapa diária.

Henrique Andrade (PraQuemPedala) - parceiro do Ride 2014 
- com quem aprendi a andar de MTB, finalmente!

Mesmo sem representantes em duas das oito categorias (Corporate e Nelore), Brasília levou 41 troféus! Simplesmente 24,4% das premiações de uma prova internacional, entre as 5 melhores do mundo e certamente a mais difícil. Se nossos atletas são capazes de uma proeza dessas, praticamente sem incentivos, estou convencido que a capital do país é muito mais que o cenário podre da política, que tanta decepção tem dado ao nosso país. Infelizmente não têm a visibilidade que merecem. Pois aqui ficarão registrados os responsáveis por colocar Brasília no podium do Brasil Ride 2014. 

Congratulações! Vocês são exemplo de dedicação e superação.

Abraão Azevedo
André Decanha
Walter Germano
José Antonio Ferreira
Fabrício Bezerra
Sérgio Albernaz
Julyana Machado

terça-feira, 11 de novembro de 2014

BC Bike Race 2014 - The Ultimate Single Track Experience

7 Insanas
Estágio 3
British Columbia, Canadá

O prólogo acontece nas lendárias trilhas de North Van - Sonho!

A Stage Race mais bonita do mundo. Definitivamente essa frase me chamou a atenção. E ouvi de 4 cantos diferentes do planeta. Como assim? Me perguntava, imaginando uma prova com 70% de single track. Mas no Canadá só tem floresta e urso! Será mera propaganda?

Foi pura curiosidade que me fez incluir a BCBR nos planos das 7 Insanas. E desde o primeiro contato, o tom dado pela organização surpreende pelo bom humor e presteza com que atendem os ciclistas.

O bom humor é marca registrada do evento!

Antes, permita me apresentar. Não para me gabar, claro. Mas corri de motocicletas por aproximadamente uma década, em provas de rally, enduro e motocross. Me sinto muito bem com a velocidade, sobretudo com a tomada rápida de decisões, como escolha de linhas, leitura do terreno e... down hill. E há 15 anos, quando comecei a pedalar, tomei o primeiro capote: não se ganha corrida de bikes na descida. Você sobrevive à ela, defende-se no plano e ataca na subida. Há 15 anos sofro, tentando aprender a subir. Não é fácil, principalmente para quem gosta de... descer. Me considero mediano, mas várias vezes ouvi chamadas carinhosas do tipo: Seu louco! Você não tem juízo! Como você consegue fazer isso?


Com essas credenciais e dois dedos quebrados me apresentei em North Vancouver - Canadá, para a largada do BC em 2014 - e para confirmar que toda regra tem exceção: descer rápido aqui faz toda a diferença. Depois de me encantar com a revolução urbana promovida pela bicicleta em Vancouver, levei o primeiro susto. Era só o reconhecimento da prova, e me peguei travado! Descer aí? Ficou doido? A pista construída em meio à floresta é simplesmente incrível, nunca pilotei em lugar parecido. Os drops, insanos. Singles intermináveis, pontes, passarelas, rochas e raízes ensaboadas: - alguém passou vaselina, não é possível!


Parei. Acho que é hora de descobrir algo novo. Seiscentos atletas alinharam, divididos em 10 pelotões de 60, largando a cada 3 min. No primeiro dia, você escolhe onde quer largar. Dependendo do seu resultado, você ganha uma etiqueta na placa, indicando qual o seu pelotão para o resto da semana. Fiquei no segundo pelotão, mas realmente não entendi como. Briguei com a bike como se fosse a primeira vez juntos: - péra eu, sô! - num péro, dizia a magrela pra mim, abusada e escorregadia. Enquanto os canadenses me atropelavam no plano, sobre rochas e raízes. Como assim? Desaprendi? E a peia continuava...

E tem mais: todos os dias, durante o percurso, uma etapa denominada Enduro: escolhem um percurso simplesmente alucinante, cronometragem à parte, e despencamos para alguns minutos de pura adrenalina e, para mim, decepção. Descobri que sou um Mocó, Pau de Rato, Fiote, ou o que você quiser me chamar, que signifique neófito, júnior. Pangaré, aceito.



Abordo um drop, e à medida em que ele se revela, penso no pior: se eu errar, acabou a prova. Milésimos de segundo e pronto, passaram 5. Uai! Se eles vão eu também vooooooou, quer dizer, voo. Ah! sei lá, já estou no chão e já passaram outros 5.

Depois de um desses capotes cinematográficos, olhei pra cima do barranco e vi uma linda senhora de cabelos brancos, rosto marcado por rugas (deve estar na faixa dos 60, ou andou muito em estradas de terra). Sorriu para mim, e disse, pensativa:

Vou me poupar. Ainda temos uma semana inteira, esse é apenas o segundo dia. Desmontou e desceu escorregando.
Excelente ideia. Por favor, a senhora na frente.

Cá com meus botões, pensei: melhor ver como ela faz, afinal ela está na cabeça da prova! 

- Uai! Ela estava aqui, agora! Pra onde ela foi? Sumiu? Não a vi mais.


Depois vieram as árvores. Mata escura, sem óculos, parecendo noite. Fui providenciar um atalho, o guidão travou em uma árvore e bati com tanta violência na outra, que fiquei assustado.

- Ocê pode ser mais inteligente que eu, árvore do cão, mas mais forte ocês num é. 

Encontrei um barranco perfeito, quase vertical, cheio de valas e raíz, 6 metros de altura. Pedi ajuda à gravidade, embalei o quanto pude, perdi a frente propositadamente, escolhi o lado mais forte - o direito - determinei a vítima, quer dizer, a árvore - e dei-lhe a maior PORRADA que pude.

Ela nem se mexeu. Será que o Wolverine andou por aqui, injetou aquela parada sinistra  e usou justamente essa árvore para treinar? Foi a conclusão óbvia que cheguei após conferir a falta de um bife, no ombro. - Diaxo! Mais forte e mais mais inteligente essa árvore!


Mas no terceiro estágio consegui desvendar o maior caso de dopping genético da atualidade. Fiz amizade com um canadense, foi só pagar 2 cervejas e ele deu com a língua nos dentes: - quando você compra uma bike no Canadá e diz que fará o BC, eles implantam asas que se camuflam automaticamente nas costas quando um gringo se aproxima. Por isso descemos rápido! Agora entendi. Deve ser por isso que só tem canadense no pódium! Nico Fitzmeyer, por exemplo, diversas vezes campeão do Cape Epic, começou a prova em oitavo!

Queria ficar o restinho do ano escrevendo para você o que vivemos, mas para dar um tempo às florestas e poupar papel, vou resumir. O primeiro dia, nas lendárias trilhas de North Van, foi o melhor pedal da minha vida. Então o terceiro o superou, em Powell River. O problema é que Squamish atropelou o pelotão de melhores pedais da vida. E atacou, assumindo a liderança. E quando pensei que nada mais aconteceria, a floresta revelou Whislter. Perfeita!


É outro patamar. Não há etapas rainha no BC, e aquela loucura de 8h de força ininterrupta para atletas medianos como eu. São etapas concentradas, tipo lata de goiabada: curta e grossa. Nem por isso fácil. Aliás, para quem acha que gosta de singles, sugiro conhecer e, depois, emitir opinião. O problema é a logística: ferryboat, avião, ônibus. Barraca, hotel, transfers. Uma loucura! Passamos a semana sem estabelecer uma rotina única de horários. Isso é ruim, do ponto de vista fisiológico. Mas todo esforço será regiamente compensado, nas trilhas naturais e nas fabricadas artesanalmente com um único propósito: fazê-lo sorrir! O coração bate forte diante de drops incríveis, sem falar nos voos! A adrenalina invade cada milímetro do corpo e depois uma inexplicável sensação de bem-estar invade a mente. Você anda mais dois metros, e tudo se repete. E se repete. E se repete. E quando termina, você quer mais! - Tio, posso dar outra volta?



Flying Harbour Airlines

O BC foi fundado pela Harbour Airlines. Mas essa informação passaria batida. O problema é que, alguns dias antes de embarcar para o Canadá, recebi um e-mail dizendo que fui sorteado para um passeio de hidroavião na manhã do quarto estágio. Não dei muita atenção, aliás me preocupei. Mexer com avião, antes de lagar para a etapa? Vou nada.


O problema é que o dia começa com um transfer demorado e cansativo. Ônibus e ferryboat. Ou, no meu caso, hidroavião. Eu, que nunca ganhei nem frango em Quermece, gastei toda a sorte da vida. Além de chegar 1h30 antes do pelotão no local da largada, saboreei um incrível passeio pelo pacífico, sobrevoando as ilhas e uma cachoeira incrível, cerca de 300m de altura, rasgando a floresta e despencando no mar. Recomendo. Mas compre o ticket, 169 o fizeram, outro deu sorte!

Whistler
Down Hill


Você conhece o paraíso? Então conhece Whistler, não? Simples assim. Mas vou dar uma dica, só para você. Eu deixei para o final, mas faça o seguinte: vá antes do BC! Fique 2 ou 3 dias no paraíso. Alugue uma bike de Down Hill, compre o passe da gôndola do Bike Park e divirta-se, com parcimônia. Principalmente nos primeiros contatos. Você sairá diferente, entendendo um pouco mais o que significa Canada Dirt Tracks.


Eu e os novos amigos de infância Luiz Eduardo (SP), Ricardo Purri (BH), e Omer Shapira (Russo Judeu da Califórnia), combinamos: a primeira descida será na linha verde. Na metade, esquecemos o trato. Já pulamos para a primeira azul que apareceu. E solta o freio.

Na segunda descida, encaramos os dois lifts, até o mais alto possível para bikes, e conhecemos o êxtase! Blue Velvet é o seu nome, e eu passaria o resto da vida me deliciando com suas curvas. E saltos! Sim, deixe a bike fluir, mas ataque as rampas. A pressão final na suspensão, na cabeça da rampa, arremessa os sonhos. Você volta à infância (semi) responsável. E duas rampas abaixo, o juízo deixa de nos acompanhar. São centenas de saltos, incríveis. Corners perfeitos, mesas emendadas. UAU! Medo, adrenalina, não vai dar... quero mais.

Abusados, na terceira vez já estávamos nas pretas: Fast Jump Trail, Duffman, Drop Clinic (Que issssso!), Freight Train / No Joke. Cada uma melhor que a outra. Drops inesquecívies, raíz, rock garden, túneis com paredes, cascalho. Foram 10 descidas no total, quase 10 horas na função. Vontade de perder o voo no outro dia...

Para ter uma noção do que estou falando!

Dia-a-dia

Stage 1 - O terror se instala. Oncotô?
Stage 2 - Pânico generalizado. Agora lascou-se!
Stage 3 - Aprendi, ou o trem carmô?
Stage 4 - Muié!!!!! Proquê ocê deixou eu vir?
Stage 5 - Amor, perdi o voo da semana que vem, e só tem passagem para depois do natal. Vou passar o restinho do ano por aqui. Diga às crianças que estou com saudades. Bjs
Stage 6 - Visa Office? How can I move to Canadá?
Stage 7 - Já acabou? Posso dar outra volta, tio?



quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Fabrício Bezerra - Companheirismo em uma Stage Race

Publicado na Revista Bike Action Abril 2014



Em uma conversa de bar:

- Aos 53 anos fui diagnosticado diabético.
- E eu, aos 53 tive meu primeiro infarto. E você, Fabrício?
- Bem, eu… Estou com vergonha de falar. Aos 53 anos vou correr minha primeira ultramaratona de mountain bike na África. Falam “ultramaratona”, mas na verdade são só 800km. E 15.000m de subidas acumuladas. Mas eu acho que é mais descida!

Também conhecido como “Espalha Rodinha”, Fabrício Bezerra é meu parceiro, quem dividiu comigo o prazer de comemorar 53 anos de idade em uma corridinha ali, na África, durante o segundo estágio das 7 insanas.

Juntos já pedalamos mais de 2 mil km em competições, carregando a experiência de duas edições do Brasil Ride.

Quer um conselho? Gaste todo o tempo do mundo na escolha do parceiro. Isso pode ser a diferença entre atingir o objetivo, ou viver uma semana infernal durante uma Stage Race.




MTB Ultramaratona - Um tributo à parceria
Publicado no Correio Braziliense em nov/2011



O raciocínio que fundamenta a regra é simples: o percurso de uma ultramaratona de moutain bike, além de técnico, sinuoso e ermo, proporciona ao atleta, durante boa parte do dia, a solidão. E quando bate o cansaço físico, ou mesmo psicológico, a chance de cometer erros aumenta, assim como a margem de acidentes. Além disso, sempre ficamos com aquela ponta de competitividade que nos implora: - solte o freio!

Assim, a maioria das ultramaratonas que existem no mundo compartilham um mesmo princípio: a realização em duplas. Aos olhos da organização, não existe mais solidão. Em caso de acidente, resta um para fazer a primeira avaliação, solicitar resgate, e aguardar fazendo companhia. Além, claro, do contra-peso fundamental para recobrar o juízo quando alguém se excede.


Mas para os participantes, esse pode ser o princípio do fim. Se pedalar 100km em um dia é difícil, imagine fazer isso durante uma semana, com até 12h de duração de uma etapa, em território desconhecido.

O nível de estresse é alto, e generalizado. Nesse momento, o que deveria ser ajuda passa a ser “o problema”. Vejo duplas degladiando-se nas provas. Discussões, humor azedo, raiva até. Chegamos ao ápice de um integrante simplesmente ir embora da Bahia, no quarto dia de prova de uma edição do Brasil Ride, abandonando o companheiro. 



Enquanto esse cenário se desenvolvia, intenso, cheguei a sugerir ao meu parceiro: 

- Melhor arrumar um motivo para brigarmos. Acho que somente nós estamos errados! 

Mas em sete dias intensos de grande desgaste físico e psicológico no Brasil, ou plena superação na África, posso atestar que a minhas camisas e medalhas de finisher devem honras a um termo que jamais será esquecido: meu Parceiro. Assim, com letra maiúscula. Pelos momentos de compreensão, de apoio, de ajuda física até. Pela responsabilidade e zelo nas descidas técnicas, e pelo bom humor nas horas críticas.

Como digo sempre, não é necessário procurar muito para encontrar o lado pesado da vida. Mas para uma ultramaratona, a relação deve ser leve tanto para bicicleta como para os momentos de convivência.



Portanto, fica a dica: trate de construir, desde já, a parceria ideal. 


Abraão Azevedo - Bicampeão do Cape-Epic

"If you are going through hell, keep going"
Winston Churchill

Abraão e Bart Brentjens, na coletiva de imprensa
do Cape Epic 2014: Bi-campeões na África do Sul
Publicado na Revista Bike Action, Abril 2014.


Conheci o Abraão Azevedo no Iron Biker de 1997. Depois de dar o sangue em busca da vitória, perdeu. E à boca miúda, ouvi em alto e bom som: 

- Que pena. Vai encerrar a carreira sem nunca ter vencido o Iron Biker. Já está velho. O tempo passou para ele.

Isso foi há 17 anos. Mas o goiano radicado em Brasília, exemplo de simplicidade e determinação, não aceitou a provocação. Voltou e ganhou duas vezes a maior prova de mountain bike do Brasil (2000 e 2005). E foi campeão Pan-Americano!

Treze anos se passaram, e a especulação voltou: 

- Agora que ele já fez de tudo, aposentadoria. Certeza!

Só que não. Abraão foi vice-campeão mundial. Mas a prata era pouco. Voltou lá e nos trouxe o ouro. Então fez o que considero mágico: reinventou-se, no mesmo esporte. Juntamente com o Brasil Ride, o “Patrão" - como é carinhosamente chamado em Brasília - nos prova que nada resiste à dedicação. 
Ganhou todas as edições do Brasil Ride até hoje (considerada a Stage Race mais difícil do planeta), cada vez com um parceiro diferente, à exceção de 2014, novamente com o primeiro campeão olímpico da história do Mountain Bike, o Holandês Bart Brentjens.

A despeito da falta de incentivo, das dificuldades para se manter no topo, mergulhou duas vezes seguidas no Cape-Epic, de onde saiu no lugar feito para ele: o alto do podium.

Estrategista nato, me divertia com ele e a altimetria da etapa seguinte:

- Patrão, até aqui estarei com a Elite. Ali, naquela subida, vou dar uma borrachada e ver quem sobra…

Sorriso maroto como quem adivinha o futuro. A piada da tarde no motor home do “Champs”, comendo arroz integral com cogumelos, tomate e pepino preparados por ele, transformava-se em orgulho à noite, no jantar de gala para 2.000 pessoas em plena África:

- E em primeiro lugar, Bart Brentjens da Holanda e Abraão Azevedo, do Brasil.

Dava vontade de pegar um megafone, do outro lado do Atlântico, e gritar para todo o Brasil: 

- Quando é que vamos aprender a cuidar bem das nossas estrelas do esporte?

Mestre, Patrão, Champs: você é orgulho e fonte de inspiração. 
Parabéns por mais um título.

Cape Epic 2014

7 Insanas
Estágio 2 - South Africa
8 dias, 718 km, 14.000 up
Publicado na Revista Bike Action    Fotos: Sportgraf 




Até conhecer a África do Sul, há 3 anos, tinha a Europa para o ciclismo de estrada como a América do Norte para o Mountain Bike, mas revi meus conceitos ao colocar os pés na Cidade do Cabo, ainda em 2011. Quando falamos em números absolutos, o continente que viu o homem levantar e andar, agora o vê pedalar.

Pense em um grande evento: certamente o maior será na África do Sul. Em Cape Town acontece anualmente o Cape Argus, uma prova com mais de 100km de percurso, no asfalto, com 36.000 inscritos (2014 - novo recorde). São 6 horas de largada!



E se o assunto é mountain bike, impossível não falar do Absa Cape-Epic. Esse ano foi a Edição de número 11, novamente com a participação de 600 duplas - número limitado pela organização. Oito dias de puro mountain bike, cenários incríveis e grandes desafios.

Mas você acha que é só uma corridinha de bicicleta, só que na África, cuidado com a decepção. São 1200 atletas, em 05 categorias: Pro, Master, Gran Master, Mix e Ladies - reunindo os melhores do mundo, em 2014 com 46 países representados. Somente 03 lugares no podium, para cada categoria. Cada atleta paga, de inscrição, U$ 2.500. O evento tem uma receita estimada em U$ 5.000.000, inclusos patrocínios. No ano passado, a loteria que é a porta de entrada do evento encerrou as 600 vagas em 57 segundos, com um ano de antecedência!



E se entra, sai. Mais de 80 caminhões cuidam de armar e desarmar os circos - a grande maioria dos atletas fica acampada. São 850 pessoas na organização, dos quais 50 voluntários,  e 11 estrangeiros que pagaram suas despesas para juntar-se à festa. Cerca de 32.000 refeições servidas em meio ao nada: em um gramado de uma fazenda ou no próprio pasto. Além disso, 03 helicópteros em tempo integral cuidam das imagens. Cerca de 3.000 pessoas acompanham a prova, e no ano passado, 2714 consultas médicas foram realizadas pela equipe de plantão. E toda a estrutura deve respeitar as exigências da África: muito vento, chuva, frio, lama, ou calor. Ou todos juntos no mesmo dia!

A prova atingiu um nível de excelência que não apenas é um novo marco na história do Mtb, mas estabelece níveis dificilmente imagináveis, sequer replicáveis. Da pontualidade em que a rotina diária é estabelecida às toalhas geladas que o competidor recebe na chegada, uma para limpar o grosso da poeira (ou lama), outra para colocar na nuca e baixar a temperatura do corpo, enquanto saboreia um incrível kit balanceado de nutrição, e a organização lava sua bicicleta.



E à disposição do atleta, todo tipo imaginável de conforto. Do upgrade para hotéis, com transfer à sua disposição, à carga do seu Garmin. Rastreamento online também foi outra novidade implantada neste ano, e festejada por quem fica no apoio. São dezenas de lojas, oficinas e expositores que compõem o comboio. E não é só uma questão de patrocínio, mas de envolvimento. Você pára no posto de hidratação e avança na comida na mesma velocidade que alguém da Oakley (um dos patrocinadores de 2014) avança e pega seus óculos, lava e passa um anti-embaçante. Bem antes de você pensar em parar de comer, com um sorriso de satisfação e palavras de coragem, suas lentes estão novamente no rosto. Quase não dá para ajudar o pessoal que fica lubrificando as correntes.

Tudo para garantir que você terá uma semana inesquecível, e que levará para casa as melhores impressões.



Aliás, esse é o maior aprendizado que trago para o Brasil: quando o envolvimento é geral, todos ganham. Não há reserva de mercado. Os fazendeiros, por exemplo, descobriram que podiam utilizar as partes de reserva das fazendas para fazer trilhas próprias para bikes, com manejo impecável. 



Assim, atraem clientes para degustar e comprar seu vinho, ou o mel produzido na fazenda. Ou as frutas. Ou uma saborosa refeição. E ao trazer os ciclistas para dentro da porteira, viram suas famílias se modificarem, aderindo ao pedal. Mais pessoas, mais trilhas, mais oportunidades. E o Cape aproveita todas elas. Seguimos saltando montanhas em áreas abertas, com a imensidão africana, rodando em estradas abertas ou dentro de bike parks - alucinantes trilhas que proporcionam incríveis sorrisos. 




Definitivamente, deixo a África com a sensação que eles aprenderam, como ninguém, a fazer a roda girar. Fica o sonho de ver o Brasil fazendo acontecer também. 



Quanto ao Projeto 7 Insanas, acho que vou mudar o nome. Sete Insanas e um desajustado. Onde você estava que não me impediu? Nem para mandar uma simples mensagem de alerta: - Ô doidão, 07 ultras? Sensações loucas. No dia que desembarquei na África, recebi a confirmação da BC Bike Race. Agora, enquanto escrevo o relato do Cape, compro a passagem para o Canadá. Vancouver, junho tem mais. 




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Abaixo os vídeos feitos para o site PraQuemPedala: