domingo, 8 de novembro de 2015

Brasília - Paraty, travêz.


A primeira vez foi de bicicleta. Saí pedalando de casa em Brasília, em uma bicicleta tandem (dupla), com um desconhecido, bruto e cego, desde então meu novo irmão, Adauto Belli. Ele, que deveria me trazer lucidez e juízo, me ensinou que há muito mais em enxergar sem ver, que ensinar a partir da perspectiva única do olhos. E me ensinou o que é coragem: por 1.700km ficou na minha garupa, sem ver as valas, os mata-burros e abismos que cruzamos. E eu, nos 300m que andei com ele pilotando, não tive coragem de fechar os olhos. O verbo confiar ganhou nova perspectiva em minha vida.

Com um mapa na cabeça, deixamos o Planalto Central emendando estradas de terra até Diamantina, onde começamos o Caminho Velho da Estrada Real, até Paraty, no Rio de Janeiro. Coragem, disposição e bom humor. E Minas Gerais. Que por si já é razão suficiente. As montanhas, a história, o povo, a hospitalidade, os causos, e o diaxo da costelinha de porco. Oh, Minas Gerais!


Quando o amigo Flávio Milhomem veio sondar sobre o caminho que fizemos, dizendo que estava pensando na possibilidade de fazer o mesmo, de moto on-off road de grande cilindrada, não tive dúvidas.

  • Precisa de guia? Não dou trabalho, pago minhas despesas e pronto. Vóis mecê pagano um queijo no Serro, uma Pincomel no Cipó e uma Costelinha com Ora-pro-Nóbis em Ouro Preto, considero remunerado.

Deixamos a Capital para 9 dias de cascalho, areião, costela (de vaca), pedras, montanhas, poeira, lama, chuva, várias desgarradas rumo ao desconhecido, Mata-nóis (mata-burro longitudinal com vala central), solidão dentro do capacete, calor insuportável, frio de bater o queixo, e inevitáveis e incontroláveis sorrisos no final de cada dia, às vezes à volta de um fogão de lenha tomando uma dose de cachaça direto do tonel, claro, com um queijin, noutras provando a mineiríssima e extraordinária Backer, com a tradicional cozinha Mineira. Ah! E um dia para voltarmos, extasiados, para o cerrado.


A desculpa perfeita. Durante a viagem de bicicleta com o Adauto, conhecemos pessoas incríveis, que abriram a porta de casas humildes, e colocaram na mesa toda a comida disponível, em troca de sorrisos, piadas, e explicações da nossa saga, às vezes querendo dar uma volta na Indiona (nome da nossa bicicleta tandem), mas mineirin encabroado, preferindo comer um queijo a subir num trem doido daqueles.

Acabei escrevendo um livro (Brasília - Paraty, Somando Pernas para Dividir Impressões, Ed. Thesaurus 2009) para registrar alguns sufocos, um desafio de gente grande e tantos causos pitorescos. Coloquei 06 exemplares no alforje, e já sabia exatamente quem procurar, como a Dona Cândida.


Viajar de moto é ver o mundo sob outra ótica. Expandir os horizontes. Sem a proteção do carro, ou o perrengue da bicicleta. A parada é onde você quiser, se quiser. De Big Trail, tanto faz onde. Quanto pior a estrada, melhor a empreitada. 

Até participar do BMW GS Trophy South America, um rally exclusivamente disputado por motos de grande cilindrada, achava que essas motos eram puro estilo, um apelo válido somente para viagens longas por caminhos tranquilos. Depois da experiência, descobri que você faz o seu caminho. Suspensões confiáveis, motor de sobra.  




Como dizem os mineirinhos, “Tá bão causo que tá ruim, mió seria se pió fosse”! Voando por cima de lombadas e mata-burros, atravessando grotas, saltando pedras, fazendo curvas de lado e atropelando buracos e costelas de vaca. Unstoppable, como diriam os alemães, ou simplesmente: 

- Nú! Trem Bão, como diriam em Minas! 



O Parceiro Milhomen pilotou uma BMW GS 800F, e eu uma KTM 990 Adventure. Diria que a alemã é a moto definitiva. Confiável, ágil, motor redondo, ciclística perfeita, baixo consumo e boa autonomia. Contra pesam apenas uma certa fragilidade nos aros e na suspensão. Já para quem gosta de sustos, de montar em “boi bravo”, tem disposição de fazer muita força e quer fazer estripulia, pó garrá no chifre da austríaca!




Um comentário:

Adriana Dalman Boccia disse...

Weimarrrrrrr....adoro ler seus relatos, me mato de rir.
Muito bom!

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